11/01/11

Uma reflexão filosófica muito profunda

As máscaras.

Se notarem bem, dependendo das companhias as pessoas tendem a mudar - é normal, as pressões sociais mudam, as pessoas ajustam-se a essa mudança. Para cada grupo põem uma máscara diferente, deixando apenas à vista parte de si, uma parte que se adapte ao meio, que não seja destoante. Fazem-no para se sentirem protegidas, para serem aceites, por uma quantidade de razões. E as máscaras servem esse propósito. Graças a elas somos aceites, conhecemos pessoas, e a nossa essência é protegida do cruel mundo que nos rodeia.

Mas a máscara apenas deixa passar uma fracção de nós. Por trás dela está uma pessoa completa, um ser muito maior do que a máscara deixa antever. Quando se chega a um local novo, levamos quase sempre posta uma máscara grossa, que nos permita avaliar, sem nos expormos em demasia. Depois, à medida que ganhamos confiança a ela vai descaindo, vão-se soltando fragmentos, e expomos uma parte cada vez maior da nossa essência ao mundo, com esperança que essa parte seja aceite, para que possamos largar a máscara e passar a sermos nós mesmos. Mas isso nem sempre acontece, por isso voltamos a pegar naquele bocadinho e a cola-lo, e não se fala mais no assunto. A cobertura não é completa, claro. Mas ao menos aquele ponto fraco está escondido e não é ostensivamente exibido.

Adaptamos-nos, vê-mos o que podemos deixar à mostra, e o que tem que permanecer escondido. Deixamos partes de nós passar, e mantemos outras fechadas cá dentro. Por vezes o medo impede-nos de expor mais um bocadinho, que talvez até fosse aceite, mas o receio da exclusão obriga essa parte a manter-se atrás da mascara.

E é o medo que pode transformar a máscara em algo monstruoso. Quando o medo da rejeição começa a falar mais alto, a máscara torna-se possessiva, começa a sussurrar-nos ao ouvido, a diz-nos para não fazermos, para não dizermos, para não sermos. E ai começa o descalabro. Começamos a tomar atitudes que não são nossas, a deixar-mo-nos ir com a corrente, e tudo isto porque por causa do medo agora é a máscara que nos usa, e não o contrário. E quando todos somos máscaras, todos somos iguais, seguimos na corrente, sem originalidade, sem pensamentos próprios, formando uma massa anónima.

Deixamos de ser únicos para sermos apenas mais um.

E com isto, o ser que está atrás da máscara encolhe-se, apaga-se, e começa a morrer. Quando nos escondemos e nunca nos deixamos respirar e vir à superfície, quando nos abafamos constantemente por de trás de uma máscara opressiva, vamos morrendo aos pouco. É vital que isso não aconteça, que nos mantenhamos mais fortes do que a máscara, que a usemos, como um utensílio útil, sim, mas como algo te tem eventualmente de ser descartado. Quantas vezes no seio de um grupo nos sentimos sozinhos, sem ninguém com que nos identifiquemos, e no entanto continuamos lá, apenas por comodismo? Por vezes não temos escolha; uma turma, uma equipa, uma casa. E, como não nos identificamos apenas mostramos a nossa máscara ao grupo, não mostramos o nosso eu. E se estamos escondidos, como podemos esperar que os outros nos vejam? O que nos garante que o meu próximo lá no fundo não é igual a mim, que temos mais em comum do que pensamos, e que apenas por usar-mos uma máscara não o sabemos? Quantas vezes acontece, conhecemos uma pessoa à anos, e de repente descobrimos que ela até gosta de, sei lá, ir à praia de inverno ver o mar revoltoso, como nós, e apenas por estarmos escondidos acobardados por detrás de um rosto que não é o nosso descobrimos isso mais cedo? Que como essa partilhamos tantas outras coisas, que podiam ter dado numa grande amizade, ou pelo menos em algo mais do que o bom dia/boa tarde que a educação exige?

E é ai que a amizade entra. Quando descobrimos pontos em comum, ou mesmo uma personalidade que nos agrada, vamos deixando cair a máscara, bocados cada vez maiores, libertando-nos do seu sufoco e do seu peso. Um amigo é alguém que nos aceita, que nos deixa ser quem nós somos, que nos faz sentir que não estamos sós no mundo. É alguém que podemos contar, que sabemos que está lá para o que der e vier. Mas para se chegar até ai tem que se fazer um esforço, tem que se deixar cair a máscara, temos que nos expor. A amizade floresce entre pessoas, não entre máscaras, e é por isso que apenas quando pomos estas de lado conseguimos alcançar o próximo, e formar laços com ele.

E isto já está enorme, e já não é cedo. Talvez um dia escreva o resto deste texto. Que raio de coisa mais deprimente --'. Bah, e uma gota de pervismo, fetiches há muitos, e o das máscaras nem sequer é especialmente original.

Céus, que isto está mesmo pelas ruas da amargura, nem a perversidade me salva.

3 comentários:

Leto of the Crows - Carina Portugal disse...

Gostei muito da tua reflexão filosófica mui profunda, Xé. E concordei com ela ^^

E agora vou publicitá-la no facebook! Muahahahaha!

Z de Zé disse...

oO publicidade descarada no face! Inda bem que gostaste.

Kath disse...

As máscaras fazem parte de nós, muitas vezes. Não deixam de ser coisas que colocamos, mas são nossas, e são nós.